Cultura portuguesa, com absoluta certeza

Quem vê as obras de André Soares na cidade de Braga, entre portentosas ornamentações de pedra em fachadas solenes e exuberante talha em madeira nos retábulos sacros, não deixará de pensar no legado de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, nas cidades históricas de Minas Gerais.

O artista do mosteiro de Tibães e o criador de São Francisco de Assis de Ouro Preto e do Carmo de Sabará parecem dialogar, fraternalmente, no primeiro plano dos acervos de arte luso-brasileiros. Germain Bazin, o conservador do Museu do Louvre que estudou pioneiramente o Aleijadinho, reportou-se a André Soares para em ambos reconhecer a genialidade artística que o século 18 engendrou em Portugal e no Brasil.

Esses dois mestres admiráveis acham-se entre as mais altas expressões que, lá e cá, o ciclo do ouro setecentista inscreveu na história da arte. Estão próximos pela herança barroca e as inflexões do estilo rococó, mas são soberanos na autonomia da expressão. Entretanto, foi tão intenso o intercâmbio entre o Norte português e a Capitania das Minas Gerais que incontáveis reciprocidades podem ser assinaladas por quem aqui observa o patrimônio colonial e na região do rio Minho contempla as suas características mais genuínas.

O monumental escadório de acesso ao Bom Jesus do Monte de Braga, desenhado por Carlos Amarante, sugeriu o lance de escada pelo qual se alcança o adro em que o Aleijadinho instalou seus doze Profetas, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas do Campo. A devoção ao padroeiro de Matosinhos, cidade portuária do Norte na qual milhares de pessoas embarcaram rumo às minas de ouro do Brasil, mantém-se acesa na religiosidade dos mineiros. Santuários são encontrados em cidades como Congonhas, Conceição do Mato Dentro, Matosinhos, Ouro Preto, Itabirito, Piranga e Campo Belo.

Minas Gerais conserva, com profunda afeição, as digitais portuguesas que proliferam em usos e costumes e distinguem boa parte do patrimônio imaterial dos mineiros, desde os festejos tradicionais da cidade e do campo, como a dança de São Gonçalo ou as cavalhadas de mouros e cristãos (em Morro Vermelho e Amarantina), até às mais saborosas criações da nossa culinária. Grande mestra da gastronomia mineira, Dona Lucinha Clementino de Moura Nunes conta que, no Serro, antiga Vila do Príncipe do Serro do Frio, as receitas portuguesas foram passadas de mãe para filha ao longo de três séculos, ao tempo em que se desdobravam em versões vernaculares de inimitável paladar.

O fato de Minas Gerais ser também a “patriazinha” – como disse Guimarães Rosa – de grandes escritores torna o Estado um poderoso baluarte da língua portuguesa. Nosso idioma de cultura encontra nos autores mineiros opulenta contribuição ao enriquecimento da escrita e da fala, da poesia e da prosa, bem como do reconhecimento da importância de que o português se reveste no mundo contemporâneo. Minas é um estado de espírito português, como provam essas manifestações da nossa mais enraizada cultura.


Angelo Oswaldo de Araújo Santos é jornalista, escritor, ex prefeito de Ouro Preto e ex secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais

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