Inovar ou inovar, eis a questão!

Sim, é esta mesmo a expressão proposta. O título deste artigo, “Inovar ou inovar, eis a questão” nos remete propositalmente a provocar a famosa frase de Hamlet na peça de Shakespeare, “Ser ou não ser, eis a questão” ; pode soar como uma questão muito complexa mas na verdade é tão simples como viver ou morrer, existir ou não existir.

Inovar, criar, melhorar, mudar, são fatores decisivos para o ser humano alcançar qualidade de vida e sobreviver face aos seus desafios de existência. O mesmo se aplica a sobrevivência das organizações, cada vez mais, seguindo o aumento exponencial da tecnologia e das possibilidades de se endereçar as necessidades, desejos e níveis de exigência também crescentes dos mercados consumidores.

Sem entrar na discussão inovação x invenção, o fato é que fazer algo de maneira diferente, fazer algo novo, tem sido praticado desde sempre em busca da sobrevivência; desde as ferramentas básicas do paleolítico, o vidro na era do bronze, a roda, a bússola, a pólvora, a imprensa, a bateria, a Penicilina, a lâmpada, a máquina a vapor, o automóvel, o avião, o telefone, a TV, o estudo do DNA, a internet, podemos enumerar uma infindável lista de resultados dos esforços e da criatividade do ser humano em criar e melhorar as coisas essenciais para sobreviver, viver melhor, ser mais rápido, produzir mais, se informar, obter status, dentre outros tantos objetivos.

Analisando do ponto de vista das organizações, inovar passa por introduzir algo novo, modificar para melhor algo já existente, utilizar novos métodos para melhor executar ou desenvolver processos, serviços ou produtos.

As empresas buscam cada vez mais a diferenciação e a vantagem competitiva sustentável através do tempo, temendo o risco real de não conseguirem manter-se relevantes para o mercado e seus clientes. Não precisamos realizar um grande esforço para nos lembrar de grandes corporações que não estruturaram uma estratégia de inovação e não ousaram “pensar fora da caixa”, ou inovaram de forma desastrosa. Casos de empresas líderes no passado como Xerox, Kodak, Blockbuster, AOL, BlackBerry, Yahoo, dentre outras tantas que criaram soluções avançadas e importantes, mas que não acompanharam a velocidade das mudanças externas com o passar do tempo, sofrendo com a perda de relevância, percorrendo ainda um caminho duríssimo de transformação para tentar voltar a ser reconhecidas no mercado como participantes de ponta. Por outro lado vemos tantas outras se destacando por serem mais abertas a experimentação, estimulando a criatividade e inovação como a 3M, Google, Amazon, Netflix, Uber e mais recentemente uma grande família de fintechs, healthtechs, agrotechs, todas atraindo muita atenção e investimentos bilionários por trazerem inovação e disrupção em modelos de negócios tradicionais, resolvendo de forma inovadora os requerimentos de mudança e as exigências do mercado atual, angariando milhões ou bilhões de adeptos por todo o globo em uma escala gigante.

O trabalho “Global Innovation Survey” da McKinsey revela o quanto a grande maioria dos executivos acredita que a inovação é importante para suas estratégias de crescimento, com 84% dos entrevistados fazendo esta afirmação. No mesmo trabalho 80% dos executivos acredita que os seus modelos de negócio atuais estão em risco e apenas 6% estão satisfeitos com os resultados relativos ao processo de inovação nas suas organizações.


A palavra “inovação” virou a palavra da moda, um dos termos mais ouvidos em eventos, na internet, nas consultorias, nas empresas, nos papos executivos.

Mas será que é tão fácil e simples assim?

Boa parte das organizações ainda não conseguiu ter sucesso na inovação, pois inovação nas A empresas é um processo e não um simples ato isolado, uma vontade do board, uma ordem superior. É necessário um trabalho de implementação da cultura de inovação na empresa, cultura que significa envolver todos os níveis da organização, alinhar os objetivos, investir em tecnologia, conhecimento, recursos. Antes de tudo a cultura da inovação deve ser representada e incentivada pelas lideranças, pelos decisores e gestores, que precisam ser os patrocinadores e catalisadores da inovação e da abertura à mudança por toda a empresa.

Considerando que a organização teve o patrocínio das lideranças na implantação da cultura de inovação, o que fazer para ter sucesso nos objetivos? O processo de inovação deve ser planejado e gerenciado dentro das organizações para que elas consigam os melhores resultados, utilizando de forma inteligente os recursos financeiros, técnicos e humanos envolvidos, sem medo de errar e controlando os resultados obtidos.

Os principais tipos de inovação que são discutidos e implementados nas empresas hoje são voltados para a inovação de produtos, inovação de processos e inovação nos modelos de negócios. Inovar apenas em produto, por exemplo, não garante o sucesso e a sustentabilidade de uma empresa como líder; é importante pensar como um todo, melhorando e sendo criativo nos processos que lidarão com os produtos ou serviços desde a sua concepção e fabricação até chegar às mãos do cliente, ou mais ainda, melhorar e inovar também no modelo de negócio, a mudança que na maioria das vezes é a mais profunda e pode levar a empresa a um outro nível perante o mercado, quebrando paradigmas e criando novas maneiras de fazer o que já existia, entregando soluções de alto valor e gerando facilidades para o cliente, que responde positivamente e rapidamente com adoção em massa trazendo aceleração e escalabilidade aos negócios(vide Uber, Netflix e o próprio conceito de “cloud” em TI).

A importância do planejamento e da gestão do processo e dos resultados da inovação é reforçada por inúmeros artigos, livros e consultorias pelo mundo afora, suportados por várias ferramentas, modelos e técnicas interessantes que foram criadas ou aperfeiçoadas para conduzir e facilitar todo o processo : Método Lean, Método Agile\Scrum(não só para software), Design Thinking, Value Proposition Canvas, Benchmarking, Growth hacking dentre outras.

Uma abordagem importante é a dada por Clayton Christensen no seu livro “ The Innovator’s Dilemma” , leitura recomendada aos que se interessem em se aprofundar no assunto inovação e seus impactos no negócio. No livro o autor, reconhecido professor de Harvard, disserta sobre inovação, disrupção e como as empresas podem perder a relevância, a liderança de mercado ou mesmo desaparecer, acreditando estar fazendo a coisa certa, lidando com a inovação de forma não planejada e estruturada, não questionando os modelos tradicionais de negócio.

Outro material interessante que pode somar questões ao assunto inovação e disrupção é o livro “Lucro a partir do core business” (título traduzido para o português), onde o autor Chris Zook, partner na consultoria internacional Bain & Company, expõe suas ideias e resultados de pesquisas sobre como as empresas podem manter crescimento e lucratividade sustentáveis sem sair do seu core business, enquanto um alto percentual de empresas falha ao tentar crescer e se diferenciar afastando-se muito do seu negócio principal ao invés de manter o foco e melhorá-lo, fazer diferente, inovar dentro do espectro onde é reconhecidamente bom. Apesar de ser outro assunto, é um tempero bom de se adicionar às discussões sobre inovação sem foco, planejamento, processo e controle; como se diz por aí, o mesmo remédio que cura, mata...

O conceito de Inovação tem sido muito propagado no meio corporativo mas nem sempre é fácil partir da teoria para a prática, efetivamente implementando o processo dentro da empresa, quer seja pelo não alinhamento de toda a empresa em torno do assunto, quer seja pelo turbilhão do dia a dia tomando toda a atenção dos executivos para a sobrevivência a curto prazo, esquecendo-se da necessidade de se trabalhar para a sustentabilidade e perenização do negócio, onde inovar é um dos melhores caminhos…

Alexandre M.Graça- out/20


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